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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Psicodelia Para Principiantes: Ligue-se... Sintonize... Caia Fora (do Sistema)




por André Forastieri e José Augusto Lemos


Turn on, tune in, drop out, o slogan máximo do psicodelismo, criado por Timothy Leary, pode sugerir hoje ranço e hippismo.

Afinal, pós-perestroika, as drogas foram eleitas inimigo número um da Civilização Ocidental. E entre seus consumidores — um mercado global que movimenta cerca de cem bilhões de dólares ao ano, quase a dívida externa brasileira — as químicas mais procuradas não são mais as alucinágenas, mas as estimulantes: cocaína, crack, anfetaminas diversas. A maconha continua popular, mas seu consumo cai regularmente no mundo inteiro há anos.

Substâncias alteradoras do funcionamento da mente são cada vez mais malvistas. Para a geração que cresceu sob a ofensiva antidrogas de Reagan, é inimaginável o fato de que há pouco menos de trinta anos a utilização de alucinógenos como expansores da consciência era defendida com unhas e dentes por uma fração razoável da elite científica do planeta.

A psicodelia — “manifestação do espírito”, em grego — tem raízes milenares. Praticamente todas as civilizações de que se tem notícia usaram um ou outro tipo de alucinógeno, quase sempre com fins religiosos. Mas a maneira como o movimento psicodélico floresceu no início dos anos 60, principalmente na costa oeste dos EUA, tem uma base distinta no New Deal, politica de realinhamento econômico promovida nos anos 30 e 40 pelo presidente Franklin Roosevelt.

A América pós-New Deal foi pautada por quatro explosivos elementos: o maior desenvolvimento econômico da história, a maior distribuição de renda, a maior expansão da rede de comunicações, a maior explosão demográfica. O termo baby boom é perfeito: entre 1946 e 1964, 86 milhões de crianças foram colocadas numa sociedade superafluente, em meio à uma explosão informacional inédita. A televisão colocou o mundo ao alcance de todos e forneceu a essa geração uma fortíssima ilusão de livre arbítrio.

O material humano para a aventura psicodélica já estava, portanto, em ponto de bala. O material químico também: já em 1938, o bioquímico suíço Albett Hoffman havia sintetizado o vigésimo-quinto derivado do ácido lisérgico, mais conhecido como LSD.25. Em 1958, sintetizou a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” mexicanos. E a maconha, claro, já era consumiria nos circuitos jazzísticos.

A Califómia dos anos 50 foi um foco privilegiado para o nascimento da chamada “contracultura”, reunindo artistas expatriados como Aldous Huxley e a produção local dos hipsters e beatniks, amantes do jazz e da poesia libertária de Walt Whitman e Thoreau. Na linha de frente, o grupo de escritores beat, comandado por Jack Kerouac, Alien Ginsberg e a farmácia ambulante, cobaia de si mesmo na experimentação de toda e qualquer droga, William S. Burroughs. Entre eles, o interesse pelo hinduísmo e pelo zen-budismo (disseminados pelos escritores Alan Watts e D.T. Suzuki) lançava as sementes para o movimento hippie da década seguinte.

A primeira bíblia do psicodelismo veio assinada por Aldous Huxley, descrevendo sua experiência com a mescalina, princípio ativo do peiote (cacto mexicano). Editado em 54, As Portas Da Percepção adquiria uma credibilidade com que os beatniks não podiam sonhar; seu autor era um romancista e ensaísta inglês consagrado. Em seu leito de morte, em 63, Huxley pediu uma dose de LSD.25, não recusada. (O ácido lisérgico, comercializado em cubinhos de açúcar e depois papel mata-borrão, só foi proibido em outubro de 66.)

A coisa toda poderia ter continuado como uma brincadeira de elite, como o ópio entre os poetas românticos ingleses e o haxixe entre os românticos e simbolistas franceses (Théophile Gautier, Baudelaire e Nerval chegaram a fundar um Clube do Haxixe na Paris do século dezenove). As comunicações de massa não deixaram, ajudadas pelo doutor em psicologia clinica Timothy Leaiy, professor da prestigiosa universidade de Harvard, que desde 60 pesquisava a psilocibina e o LSD, até ser expulso em 63. Perseguido pelo establishment e sem dinheiro para continuar suas pesquisas, Leary viu a saída apontada numa conversa com o mais influente teórico das comunicações dos 60, Marshall McLuhan. O conselho: "Se você realmente acredita no LSD, faça proselitismo, palestras, happenings, shows, coisas criativas. Não perca urna chancede divulgar suas idéias na mídia. Se você ficar sozinho, está ferrado”. Leary seguiu-o à risca — com enorme sucesso. O livro reunindo suas palestras e entrevistas — The Polítics of Ecstasy — tornou-se a segunda bíblia psicodélica.



Quando veio a década de 60, São Francisco já cultivava a boêmia beatnik como uma tradição e, aos poucos, seu cenário musical começou a refletir isso. O culto ao jazz foi trocado por uma onda de folk de protesto, que por sua vez fez a transição para o rock psicodélico da primeira geração: Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Moby Grape e o maior de todos, o Grateful Dead — com sua legião de seguidores, batizados “deadheads”. Comandado por Jerry Garcia, o grupo participou integralmente dos acid tests (festas de som e imagem, a primeira versão das atuais raves inglesas) organizados pelo escritor Ken Kesey e sua turma, os Merry Pranksters. Quem lê inglês, não deve perder TheEletric kool-Aid Acid Test, de Tom Wolfe, que acompanhou todo o trajeto dos Merry Pranksters e, por tabela, escreveu a história definitiva do movimento hippy.

O florescimento do psicodelismo — que teve seu auge entre 65 e 66, e iniciou sua massificação mundial em 67, o chamado “Verão do Amor” logo fez uma ponte com a Europa, através de Londres. Carnaby Street, com suas butiques hippy, passou a ser o equivalente à esquina da rua Haight com a rua Ashbury, o centro do turbilhão em São Francisco. O intercâmbio era feito basicamente através de rock stars em turnê. Segundo a lenda, os Beatles fumaram maconha pela primeira vez com Bob Dylan; e Tom Wolfe descreve, no livro citado, o primeiro contato do quarteto de Liverpool com o underground californiano.

Em pouco tempo, Londres tinha no Pink Floyd o seu Grateful Dead. Com um light show lisérgico e encabeçado pelo freak Syd Barrett, o grupo era a principal atração do underground e não perdeu o séquito de fãs quando, contratado pela Columbia, passou a freqüentar as paradas de sucesso.



A descoberta de que o flower power já contava com uma multidão de adeptos se deu com a organização de um festival de grupos psicodéiicos organizado pelos Merry Pranksters e o Grateful Dead: grátis, ao ar livre, o First Human Be-ln reuniu milhares no Golden Gate Park, em janeiro de 67 em São Francisco. A indústria fonográfica — sediada ao lado, em Los Angeles — percebeu o potencial e, em junho do mesmo ano, promoveu o Monterey Pop Festival. A movimentação era divulgada via satélite para o mundo todo, mas a contracultura criava seus próprios sistemas de divulgação: rádios pirata, fanzines, gibis underground, jornais como o Detroit Free Press, revistas como Rolling Stone, International Times e — na Inglaterra, IT e Oz. A reação veia a cavalo, com a maioria conservadora dos EUA elegendo Nixon em 68 e as grandes empresas aproveitando a onda — como a Wamer Bros. ao transformar o festival de Woodstock num megaevento de marketing. Morreram Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Jim Morrison, e John Lennon arriscou um epitáfio: “O sonho acabou”.

Acabou nada. A contracultura e a psicodelia — mesmo banalizadas em musicais como Hair — foram um salto evolutivo no comportamento da raça humana, com um saldo político inegável. Na música pop nem se fala. Muito antes que o De La Soul sampleasse os ultrapsicodélicos Turtles, e o cenário acid house detonasse o verão londrino de 86 (com a adoção de um novo químico, o ecstasy), sua influência já podia ser sentida, de toda uma safra pós-punk inglesa ao funk de Prince. Boa parte da cultura pop vive hoje da criação de novas embalagens para os mitos dos 60 — para enorme alegria dos executivos das gravadoras e do establishment em geral, que preferem lidar com nostalgia inofensiva do que com novas formas de subversão.

Quem quiser saber mais sobre a movimentação dos 60 tem pelo menos dois bons livros à disposição no mercado brasileiro. Flashbacks, autobiografia de Leary, traça o mapa do sonho psicodélico. Las Vegas Na Cabeça, do jornalista gonzo e integrante da equipe original da Rolling Stone, Hunter S. Thompson, mostra com humor negríssimo o outro lado da moeda, a derrocada dos mais altos ideais da contracultura.



Fonte: Revista ShowBizz, ano 1990, sem número, pags 34-35

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Teddy Boys


Teddy Boys*
Roy Shuker




Os teddy boys, ou “teds”, originalmente um fenômeno britânico, apareceram em meados dos anos de 1950. Essencialmente sem instrução profissional, os teds foram excluídos da abundância desfrutada pelos jovens. Seu estilo inclui penteados elaborados (o estilo “duck arse”), paletós drapeados, engomados, compridos e pseudo-eduardianos (dai a origem do nome**), sapatos de sola grossa de crepe (“brothel creepers”) e gravatas estreitas. “A apropriação do estilo do vestuário da classe alta pelos teddy boys ‘ocultava’ o fosso entre as atividades profissionais que não exigiam qualificação, basicamente braçais, próximas do mundo lúmpen, e a experiência do sábado à noite, ou seja, a experiência de estar ‘vestido com elegância e não ter lugar algum para ir” (HaIl, S. & Jefferson: 1976; p. 48). Ás preferências musicais dos teds incluíam o início do rock’n’roll e o rockabilly. Nos anos de 1950, na Autrália e na Nova Zelândia, as versões locais dos teds foram chamadas de “bodgies”.


As atividades dos teddy boys concentravam-se em torno do rock’n’roll, dos coffee-bar, dos cafés com vitrolas automáticas e dos pubs. Envolveram- se em brigas em cinemas e salões de baile durante o advento do rock’n’roll, bem como nos conflitos raciais de 1958 no Reino Unido: “os teds eram fundamentalmente proletários e xenófobos” (Hebdige: 1979; p. 51). Nos anos de 1970 e 1980, houve um renascimento “teddy boy”, apesar de o vestuário e o comportamento dos teds “modernos” terem conotações diferentes, mais reacionárias e mais próximas do machismo da classe trabalhadora — sua cultura de origem.



Nos anos de 1960, na Grã-Bretanha, o desenvolvimento dos teds originou os rockers (também conhecidos como bikers ou greasers, principalmente nos Estados Unidos). Os rockers vestiam jaquetas de couro preto, calças jeans e botas, passavam brilhantina no cabelo e dirigiam motocicletas De modo geral, os rockers eram trabalhadores braçais sem quallflcação e mal pagos. A subcultura tinha uma orientação masculina (as adeptas do sexo feminino raramente dirigiam motocicletas). Willis (1978) vé uma homologia entre a masculinidade dos rockers, a rejeição ao estilo de vida da classe média, a motocicleta e a preferência pelo rock’n’roll. A liberdade era o principal valor dos rockers e sua preferência musical era o rock’n’roll dos anos de 1950: Elvis, Gene Vincent e Eddie Cochrane. Entre 1963 e 1964, os rockers entraram em conflito com os mods em locais de veraneio do sul da Inglaterra, originando um pânico moral. Nunca desapareceram inteiramente como subcultura identificável, embora os motoqueiros contemporâneos prefiram o heavy metal.








*Fonte: Shuker, Roy. Vocabulário de Música Pop (tradução Carlos Szlak), São Paulo: Editora Hedra, 1999

**tedd diminutivo de Edward (N.T.)

Beats X Hippies

Beats X Hippies*
Antonio Bivar


Assim como os existencialistas dos anos 40, os beatniks dos 50 — seja por analogia ou pela ordem natural da evolução — mostram muitos pontos em comum com os punks. O gosto pelo escuro, pela roupa preta, pela consciência à esquerda, por exemplo.

Apesar de ter tido como cenário-base a universidade de Colúmbia — onde aqueles que seriam as figuras mais importantes do movimento, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, praticamente se conheceram —, o movimento beat ficaria ligado aos cenários do Village em Nova lorque e da zona boêmia de São Francisco, Califórnia, pelos antros e cafés boêmios de ambas as costas. A postura beat tinha muito de existencialista. Jovens letrados da classe média baixa e alta querendo tudo que fugisse aos rigores escola- família-futuro-vida doméstica. Era o novo sonho de liberdade, a retomada do pensamento filosófico e naturalista de Thoreau e da poesia escrita e vivida por Walt Whitman. A vida aventureira e simples dos hobos (andarilhos, vagabundos) e dos mais pobres. Ricos porque livres. Dormir ao relento, trabalhar em navios mercantes para conhecer a vida rude dos sete mares e as alegrias não menos rudes de cada um de seus portos. Fumar haxixe no Marrocos, meditar na Índia, jogar xadrez ou escrever poemas e romances nos cafés de Paris. William Burroughs em Tânger; Allen Ginsberg no Tibete; Jack Kerouac on the road (pela estrada afora). E o jazz, como frente musical. A pintura abstrata, Jackson Pollock. Os beatniks foram os primeiros a difundir, para a juventude ocidental, o zen-budismo, a meditação transcendental, as experiências da vida ao ar livre, as caronas, a celebração de si mesmo em harmonia com o universo. Kerouac em São Francisco, bebendo vinho barato e comendo pizza; ou alternando cerveja com uísque; ou passando dias e noites trancado e escrevendo sob o efeito excitante da benzedrina e ao som do jazz. Cool jazz: Kerouac dizia que, quando Miles Davis soprava seu trompete, o som era como longas sentenças escritas por Proust. Jack primeiro sonhara ser um moderno Thoreau; depois quis ser o Proust da América, de sua geração, de seu povo; leu Moby Dick e desejou ser o novo Herman Melville. Acabou sendo ele mesmo, um original — On The Road é uma das obras máximas de todo o trajeto da literatura americana. Depois de todo o sonho que ele apregoara ter sido espalhafatosamente vivido pelos hippies, na geração seguinte, Jack Kerouac morreu de desgosto, tédio, alcoolismo, hérnia e uma hemorragia abdominal, em outubro de 1969, na Flórida. Aos 47 anos, jovem ainda.

Dos beats originais, William Burroughs e Allen Ginsberg continuariam na ativa nas décadas seguintes e Ginsberg, em 1982, participaria de uma das faixas do Combat Rock, LP do grupo The Clash, punk.

(...)


Como o leitor está lembrado, os beatniks gostavam mesmo é de jazz. Assim, nos sessenta, o movimento hippie não só assimilou as idéias, a cultura e os sonhos dos beatniks, mas também incorporou o outro lado dos anos 50, o rock ’n’ roll (agora tratado como música pop). E acrescentou um terceiro dado, então novíssimo: o LSD. A junção desses três — cultura beat, a música rock e mais o LSD — despertaria a atenção do mundo. Havia algo de novo e de muito atraente na música, no visual e no que esses hippies tinham a dizer.

Qual será o segredo da beleza (ou da estranheza) desse movimento? Entre outros detalhes “chocantes”, a descoberta e o uso do LSD pelos hippies fez com que o preto — a cor praticamente única dos beatniks (e existencialistas) — caísse instantaneamente em desuso, dando lugar não só ao degradé das sete cores do arco-íris mas também a todas as cores derivadas, E pela primeira vez o mundo ouvia essa palavra: psicodélia.




Em 1969, com o assassinato de Sharon Tate e amigos, pelos seguidores do satânico Charles Manson — a vítima era para ser Doris Day! Nenhuma merecia, convenhamos — a imprensa reacionária, para “cortar o barato”, atiçou que Charles Manson e seu pessoal eram hippies. Só porque tinham cabelo comprido e viviam em comunidade num deserto ali perto. Até podiam ser, pois, assim como tudo, existem hippies e “hippies”. Mas não. Era como se todos os hippies fossem iguais a Manson. E os apavorados do Sistema passaram a olhar os hippies como assassinos em potencial. Então tudo começou a ficar difícil. Ficou tão difícil que em seguida morreriam Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison; os dois primeiros de overdose e o último, numa banheira em Paris, com um sorriso de beatitude nos lábios. Ficou tão difícil que nem bem completara um ano desde o assassinato de Sharon Tate, e John Lennon se via como que intimado a dar o toque de recolher. Helter Skelter, uma das músicas dos Beatles, era a favorita do grupo de Charles Manson, que via nela uma série de mensagens ocultas. Paranóicos.
E assim acabava o sonho de toda uma geração. Mas não tão assim de pronto. Muitos achavam que o sonho estava apenas começando (estes, muito novos, estavam nos seus 1 5, 16 anos) e continuaram vivendo suas experiências nos anos seguintes. Até, digamos, 1973, quando desabou a crise do petróleo e do resto, Crise inclusive do LSD que, aos poucos, foi sumindo do mercado alternativo. Nesse meio tempo muitos foram correndo procurar emprego; outros voltaram para a casa paterna (filhos pródigos); os ajuizados amadureceram; putros retornaram as escolas; teve quem foi ser motorista de táxi e uma quantidade relevante deles casou e mudou; outra ficou perdida; há quem continue sonhando até hoje assim também como aqueles que “não voltaram”. Ninguém sabe exatamente onde estes últimos estão.

O LSD (ácido lisérgico) não foi inventado por cientistas ou químicos hippes e nem é um produto dos anos 60. Não sei agora quem o inventou (dizem que foi inventado por cientistas na Suíça) mas sei que o escritor inglês Aldous Huxley já fizera várias experiências lisérgicas nos anos 30 (ou 40). Huxley até escreveu um livro sobre o assunto, As Portas da Percepção. Um livro que os hippies, claro, devoraram. E também antes dos hippes, em 1961, um beatnik — e qual deles senão Jack Kerouac? — fizera uma única experiência, guiado pelo guru do LSD, Timothy Leary dr. Timothy Leary, em Harvard. Kerouac tomou o LSD e teve uma experiência paranóica, chegando à conclusão de que o alucinógeno em questão havia entrado na América via Rússia, como parte de um complô para enfraquecer os Estados Unidos.

Uma das diferenças básicas entre as pretensões beatniks e hippies — e talvez a mais óbvia delas — é que enquanto Jack Kerouac, no seu tempo, pretendia ser o novo Proust, na movimentação hippie John Lennon chegou a afirmar serem os Beatles mais importantes que Jesus Cristo; e Eric Clapton era considerado DEUS (a imprensa especializada, claro, deve ter tido um dedo nisso tudo). Isso em meio à mensagem maior que era “paz e amor”. E os hippies genuínos realmente desejavam paz e amor ao mundo. Mas era tanta coisa ajudando a “expandir a mente” que, todos os que viajavam e dormiam em sacos de dormir, a título de mera curiosidade ou de total entrega, passavam a maior parte do tempo tendo vislumbres do Divino e do Eterno. Era Mãe Terra nosso planeta. E a Lua, nosso satélite. E lunáticos, não poucos. Lunáticos ou não, para os hippies não fazia a menor diferença. Afinal, um dos santos simpatizados pelo movimento, São Francisco de Assis, numa de suas iluminações medievais dissera: “A loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer”.



Título meramente ilustrativo do exceto do livro O Que é Punk (Coleção Primeiros Passos, n 76). Antonio Bivar. Editora Brasiliense, São Paulo, 2001